sábado, 26 de março de 2011

Meu querido mundo virtual

TEXTO DA JÉSSICA

Meu querido mundo virtual

(...) Me envolvi tanto nesse mundo que o mundo real se tornou um mero detalhe. Eu CRIEI esse mundo, dei grande importância a ele e agora é tarde para tentar reverter. Porém, se eu pudesse voltar atrás, talvez eu fizesse tudo de novo. Sabe por que? Porque mesmo não sendo real é esse o mundo que eu queria pra mim. É como um sonho bom, no qual eu viveria pra sempre se pudesse. (...)


COMENTÁRIO

Um sujeito já disse que as mulheres imaginadas eram melhores que as reais, porque as imaginadas sempre eram como ele queria, mas as reais, às vezes, o decepcionavam.

É claro que o pensamento acima é masculino, mas existem variantes. A variante feminina-adolescente-ser-humano da Jéssica por exemplo. Às vezes as pessoas imaginam que se tornam mais populares através de um blog, que assim os outros riem mais de suas piadas, etc. Na verdade, não nos tornamos mais engraçados. O que acontece é que encontramos mais gente que ri de nossas piadas. Exemplo:

Se você tem 100 amigos e se apenas 1% deles te acha engraçado, provavelmente você se considera uma pessoa sem graça. Porque, de 100 amigos, apenas 1 ri de suas piadas. Definitivamente, você não se sente o Jô Soares. Mas chega o dia em que você começa a publicar um blog e a postar suas piadas "sem graça" nele. As visitas começam a aumentar, seu número de seguidores começa a crescer... até que um dia você tem 1000 seguidores que riem de suas piadas "sem graça". O que aconteceu? Explico:

Na Internet, não estamos limitados a um pequeno grupo de amigos. Há milhões de pessoas no mundo inteiro que têm blogs. São pessoas que riem de suas piadas "sem graça", mas que nunca te conheceriam se você jamais tivesse começado com um blog. Então façamos as contas. Cem mil pessoas passaram por seu blog e apenas 1% delas achou graça em suas piadas e se tornaram seguidores do blog. Tudo mudou? Não! Absolutamente nada mudou. Apenas 1% das pessoas, como antes, acha graça no que você diz. O que acontece é que 1% de 100 é 1. E 1% de 100.000 são 1000!

Ao menos em números relativos, portanto, nada mudou. E suas piadas também não mudaram; são as mesmas. Você inclusive é o mesmo "sem graça" de sempre.

Mas por que isso acontece? Explico:

Se você vive numa cidadezinha do interior (com 10 mil habitantes, por exemplo) e se você tenta discutir Filosofia com todo o mundo, então provavelmente você é o chato da cidade, mesmo que tenha excelentes comentários a fazer, excelentes ideias ou informações sobre o assunto. Porque simplesmente ninguém ou quase ninguém em sua cidadezinha se interessa pelo assunto. Mas ampliemos o seu mundo; alarguemo-lo para 100.000 habitantes. Como isso é possível? Também explico:

Se você escreve um blog, ele não ficará restrito à sua cidadezinha-caixa-de-fósforos. Seu blog poderá ser visto por milhões de pessoas no mundo inteiro. (Obviamente, se você escreve em português, já não poderá contar com a visita de todos os demais blogueiros do mundo. Mas, mesmo assim, você ainda poderá contar com muitos visitantes. Os que falam português, é claro!)

Continuemos refletindo. O assunto de seu blog é de pouco interesse, você fala sobre a vida secreta das baratas, por exemplo. Não importa. Haverá sempre outras pessoas como você, com os mesmos interesses. O que acontece é que elas estão espalhadas por aí, mundo afora, em vez de estarem todas reunidas em sua cidadezinha, discutindo sobre a vida secreta das baratas...

Sendo assim, não somos nós que nos tornamos mais interessantes. Nós já o éramos. (Que fique bem claro: nós já éramos interessantes, engraçados, cativantes, etc.)

O que podemos dizer é que nós nos tornamos mais populares, porque mais pessoas passam a nos ouvir e, o que é melhor, passam a nos escutar com interesse. Talvez elas mesmas, essas outras pessoas, já tenham se sentido também o chato municipal uma vez, porque se interessam por assuntos que pouca gente quer ouvir e porque também vivem isoladas em pequenas cidades.

Eu, por exemplo, não falo o que quero. Falo apenas o que os outros querem ouvir ou me calo. Não posso ter uma conversa agradável sobre Literatura com uma pessoa que não se interessa pelo assunto. Ou me calo ou falamos sobre um tema que seja do interesse dessa outra pessoa.

Um dos temas mais populares do mundo, certamente, é o futebol. Mas, por algum motivo misterioso, não há muitos blogs sobre o assunto por aí... Há exceções, é claro. E boas exceções, graças a Deus.

Mas, quando se trata de um blog, não sou eu quem se adapta. Eu simplesmente digo o que quero e as pessoas (se elas assim o querem) é que se aproximam. Obviamente, se falamos apenas o que queremos, rechaçamos muitas pessoas que não querem nos ouvir. Mas vejamos o lado bom: Só as pessoas que realmente querem nos escutar (ou melhor, nos ler) se aproximam de nós, ou seja, de nosso blog.

E assim separamos o joio do trigo: As pessoas que não se interessam pelo que dizemos, se afastam (o que é desejável) e as que se interessam, se aproximam (o que é igualmente desejável). Obviamente, não podemos agir assim no mundo real, isto é, numa cidade ou em nosso pequeno grupo de amigos. Novamente, explico:

Voltemos àquele exemplo. Se você tem 100 amigos e se apenas 1% deles se interessa realmente pelas coisas que você diz, então você só será capaz de conversar com um único amigo se você só fala o que quer o tempo todo. Quanto aos outros seus 99 amigos, provavelmente você não poderia tê-los. Porque nunca vi ninguém manter amigos se nunca conversa com eles.

Sendo assim, se estamos falando de um mundo real, temos que nos adaptar a ele em maior ou menor grau. Mas, se estamos falando de um mundo imaginário ou virtual, então esse mundo é que se adapta a nós em maior ou menor grau.

Ainda assim, eu diria que há uma diferença entre mundo virtual e imaginário.

Mundo virtual não significa um mundo que não existe. Eu, por exemplo, sou virtual para você que me lê, mas nem por isso deixo de existir. Da minha parte, posso dizer que sou bem real.

Sobre um mundo realmente imaginário, esse sim é 100% à nossa maneira. As pessoas que vivem nele, ou foram inventadas por nós ou são pessoas reais que se comportam como queremos.

A Jéssica também escreveu: "Nesse 'imaginário mundo virtual' eu criei amigos, me tornei popular [engraçada & cativante] (...)". Como eu disse acima, ela já era engraçada e cativante antes de criar seu imaginário mundo virtual. Tornar-se popular veio depois, porque através do blog ela deixou uma pequena comunidade para ganhar o mundo, literalmente.

Em poucas palavras, ela não se tornou popular ao mesmo tempo em que se tornou engraçada e cativante. Estes dois últimos adjetivos ela já possuía. E, por possuir estes dois últimos adjetivos, ela se tornou popular quando começou com o blog. Daí também podemos dizer que, em seu círculo de amigos, colegas, parentes, etc., ela não recebia o devido valor. Às vezes, Deus não nos põe nos melhores lugares e temos que ir para outra parte. Jesus é um bom exemplo, tendo deixado sua cidade no sul, indo para a capital mais ao norte, amaldiçoando um ou outro lugar no caminho (Cafarnaum que o diga!), porque se sentia atirando pérolas aos porcos...

Talvez alguém diga que a Jéssica vive em São Paulo, uma das maiores cidades do mundo. Mas, se São Paulo tem 1000 vezes mais habitantes que uma cidadezinha do interior, isso não significa que os habitantes de Sampa tenham, necessariamente, 1000 vezes mais amigos. Isso tampouco significa que um estudante de Sampa tenha 1000 vezes mais colegas de turma em sua escola paulistana!

É claro que é mais fácil encontrar semelhantes em uma cidade grande e reunir-se com eles lá, mas creio que todos tenham entendido o que procurei dizer com o parágrafo anterior. (Se não entenderam, continuem refletindo...)

Por fim (isto aqui tem que ter um fim, porque já está ficando grande), por fim eu diria que a Jéssica poderia pôr os pés para fora de seu querido mundo virtual, mas vendo bem onde põe os pés. Porque, como todos sabemos, este mundo real tem sua parte boa e sua parte má. E a parte boa, além do mais, nem sempre dura para sempre, mesmo que possa durar bastante ou muito. É como saltar de um barco: primeiro veja se há terra firme onde pôr os pés, senão não salte; espere um pouco mais...


Moral da história: Não atire pérolas aos porcos. Escreva um blog e veja no que dá!


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5 comentários:

Jéssica. disse...

E mais uma vez me surpreendendo, Breno *-*
Ouvi uma frase um dia desses e sirve muito pra ocasião: "Entre o sonho e a realidade, prefira a realidade. Pois no sonho podemos fazer o que queremos, mas a realidade tem a vantagem de existir." E é isso o que importa.! Suas palavras sempre parecem fazer aquele sentido que eu buscava dentro de minha mente mais não encontrava. (;

Akasha Taltos disse...

"Moral da história: Não atire pérolas aos porcos. Escreva um blog e veja no que dá!" Haha, foi oq eu fiz.

Ana SS disse...

Didático, você.
Prenderia a atenção até se falasse de culinária.

Carina B. disse...

Obrigada pela visita no meu blog, Breno, volte sempre!

Adorei aqui! :)

Beijos!

Lilian disse...

E cá estamos nós...
Pessoas 'virtuais' só são um reflexo do real.
No mundo virtual criado por nós somos livres...
Estou seguindo.
=*